CD/DVD

[Reportagem completa - revista Billboard] We are the world of Bahia

Edição 13
Ivete Sangalo grava DVD e especial do Multishow em Nova York com superprodução de US$ 5 milhões. Mas nada supera a farra improvisada Foi incrível, foi um sonho a festa globalizada para gravar o DVD, Multishow Ao Vivo: Ivete Sangalo No Madison Square Garden, e especial do canal pago Multishow (com primeira exibição marcada para 5 de dezembro)... Mas a agenda anda: no mesmo mês em que viveu sua noite de diva pop internacional no Madison Square Garden, em Nova York, a baiana honrou compromissos em Nova Iguaçu (RJ) e em Roma, onde cantou ao vivo e registrou duetos com o italiano Gigi D’Alessio. Gravou ainda um comercial com a apresentadora mirim Maísa e, em 9 de outubro, se não houve imprevistos, deve ter levantado poeira em Teresina, no Piauí Fest Music, antes de dividir palcos com Alejandro Sanz em sua turnê pelo Brasil.
Ivete, no mesmo palco de U2, Beyoncé e Bon Jovi
Ah, sim! E para inteirar o DVD, no dia 11 de setembro, Ivete participou de um show da Dave Matthews Band em Dallas, filmando “You And Me” em dueto bilíngue... Houve quem comparasse a empreitada internacional de agora com a ocasião em que Elymar Santos, então ídolo de churrascarias da zona norte carioca, alugou o Canecão e conseguiu ingressar no outrora glamouroso mundo da indústria fonográfica. Pura crueldade. Musical e artisticamente, os dois pertencem a hemisférios diferentes. No entanto, em comum com o episódio que marcou o show business nacional em 1985, a produção de US$ 5 milhões da baiana em 2010 teve total despudor de oferecer ao público o que ele deseja ver e ouvir – ainda que isso signifique, para muitos, ser kitsch ou pouco sutil. Normal, a maioria dos artistas populares é vista assim mesmo. O Madison Square Garden é um palco com tradição indiscutível, acostumado a receber U2, Beyoncé, Bon Jovi e outros caixas-altas do cenário pop/rock. Foi nele que John Lennon fez sua última aparição ao vivo, em 1974 – em show de Elton John, junto de Billy Joel, o artista mais associado ao local. Michael Jackson também escreveu páginas de história por lá. Isso sem falar nos eventos esportivos, notadamente lutas de boxe dos anos 70. Mas a realidade é que hoje a autoproclamada “mais famosa arena multiuso do mundo” não é um espaço tão exclusivo: sedia 320 eventos por ano e serve como “casa” para dois times de basquete e um de hóquei. Isso não diminui o feito de Ivete em 5 de dezembro: reuniu 14,5 mil pessoas, a maior parte delas da cada vez mais numerosa colônia brasileira na região. Gente como a mineira Dalila Schreider, 24 anos, que mora a duas horas de Nova York, em Hartford, Connecticut. "Eu limpo casa. Paga bem, US$ 100 dólares [por faxina], mas neste país a gente acaba gastando muito dinheiro também, né?", refletia. A poucos metros dela, o paulistano Walter Iared, cirurgião-dentista, que, apesar de não ser exatamente fã, curtia bastante o show incluído no pacote turístico que comprara". Do outro lado, animadíssima, a também paulistana Ariela Vasserman, psicóloga, 27 anos (14 deles vividos em Nova York), dançava e driblava o assédio de um colega de trabalho americano que tinha bebido demais: "Muito bem, meu!".
A cantora reverencia o público de 14,5 mil pessoas que foi ao Madison Square Garden
Classes sociais diferentes se misturavam e fizaram trenzinho durante "A Galera", inspiradas pelo chamado gaiato de Ivete: "Vamos ensinar a esse povo o que é uma periguete? Vamos lá!Bota a mão no ombro do colega e me segue!". O apelo foi completado em medley com "Chorando se foi" (a lambada "clássica" de Kaoma) e "Céu Da Boca", com o verso imperativo de duplo sentido nada sutil "chupa toda". A isso somou-se aulinha de pseudo-antropologia aplicada para todos os gringos presentes: "Na tranquilidade, porque somos brasileiros. E brasileiros são todos legais". O tom foi de ufanismo assumido, desde a letra da primeira canção da noite, "Brasileiro", com seus clichês reprocessados ("Ando de buzu precário, tão pequeno o meu salário/ Na vitrine é tudo caro e assim mesmo quer sorrir"), até o coro espontâneo de milhares de fãs na saída do ginásio: "Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor". Complexo de vira-lata nunca mais! "Eu só quero que vocês tenham orgulho de mim. Eu levo o Brasil para onde for, mas vocês também levam. Vocês, a comunidade brasileira no exterior, são o Brasil no mundo", brandou Ivete. Essa identificação genuína ficou explícita na hora de cantar um velho e belo hit dos tempos de Banda Eva, "Me Abraça E Me Beija" (composição de Lazzo Matumbi, figura soteropolitana pré-axé, ligada ao reggae). Aí a filha mais ilustre de Juazeiro começou a chorar e interrompeu a música. "Quero que tudo saia lindo e que vocês pensem que valeu a pena vir até aqui me ver." Nessa hora, mais de 14 mil se juntaram no coro: "Ivete!Ivete!Ivete!". Não deve ter sido fácil para ela. O projeto sofreu desfalques de última hora que pareciam até ebó: o cantor inglês James Morrison soube da morte do pai, alcoólatra, às vésperas de cruzar o Atlântico. A dupla Wisin & Yandel ficou ilhada por causa de uma ameaça de furacão. E a química nos duetos internacionais só rolou mesmo com a neopopozuda Nelly Furtado (que feijão essa mulher está comendo, meu Deus?). Em "Agora Eu Já Sei", o argentino Diego Torres foi apenas correto; e Juanes mesmo fazendo em dois takes, pareceu pouquíssimo à vontade em "Dar-Te". Mereceu a zoada ao vivo da baiana: "Bora Juanes! Força na peruca, meu nego! Um dia você chega lá...". Mas o santo de Ivete é forte, seu talento brasileiríssimo (olha o clichê aí...) para o improviso também. O show já tinha terminado em explosão de alegria com o medley "Festa"/"Sorte Grande" e "Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)" (com o clássico de Tim Maia sendo a apoteose dentro da apoteose)...E veio a tacada de mestre. "Tenho mais 15 minutos na casa. Vamos fazer um carnaval?", propôs. E toma "Levada Louca", "Toda Boa", "Canibal", "Pererê", "We Are The World Of Carnaval", "Mila", "Prefixo De Verão", "Maimbe/Dandalunda", "Baianidade Nagô"... Na sala de imprensa, após o show, Jon Pareles, decano da crítica do jornal New York Times, parecia atônito. Tinha de escrever resenha e simplesmente nenhuma dessas composições constava no set list divulgado pela produção, que ainda estava tentando descobrir o que tinha sido tocado. Pareles estava mais impressionado com os 25 minutos finais (esses brasileiros, sempre estourando o tempo.. Foram dez acima dos 15 que sobraram) do que com o show. Tive o prazer de soletrar para ele os nomes de Netinho e Margareth Menezes (os bem-vindos "penetras" que, carismáticos e soltíssimos, incendiaram a parte final da festa), e trocar algumas impressões. No Brasil, infelizmente, a repercussão de seu texto valorizou a análise sob o ponto de vista do receptor, mais mercadológica: Pareles previa dificuldades de assimilação do trabalho de Ivete nos EUA por causa da barreira da língua e também pela rapidez dos ritmos. A mistura rítmica seria frenética demais para ouvidos estrangeiros. Mas a avaliação artística do jornalista era positiva - ele se espantara por ouvir uma vertente de música brasileira que não suspeitava existir. "Ivete é definitivamene algo a ser visto", cravou. Como assim? Humor e nonsense no show histórico Ivete canta "I'm Easy" Versão instantaneamente surgida nas arquibancadas: "Estou facinhaaaaaa....aaaah,aaaah" Madison "Square Garden" Não, o jogador do Santos não estava em Nova York. Mas buscas do Google o associavam ao show - com ocorrências até no site oficial de Ivete.

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